Há setores da economia onde isso, de fato, já está ocorrendo;
mas também existem segmentos onde é possível inovar.
Marcelo Nakagawa é extremamente conhecido no ecossistema empreendedor
brasileiro, embora você talvez jamais tenha ouvido falar dele. Mais do que a
extensa formação acadêmica – ele é PhD em engenharia industrial –, Nakagawa
circula como poucos no ambiente de novos negócios do País. Ele é conselheiro de
instituições como a Artemísia e também já coordenou o programa de inovação da
Endeavor, uma das principais entidades de fomento a novos negócios.
Professor de empreendedorismo do Insper, Nakagawa desenvolveu recentemente
uma tese interessante a respeito da inovação. Ela pode se tornar uma commodity
a medida que surgem processos capazes de replicá-la em qualquer empresa,
exatamente como aconteceu com os certificados de qualidade. Chamados de ISOs,
sigla para o termo em inglês Internacional Organization for Standardization,
eles foram uma verdadeira febre entre empreendedores nas décadas de 80 e 90. A
consequência disso? Todos, de funerárias até multinacionais, passaram a
ostentar essa certificação e o resultado foi que esse diferencial se perdeu.
Leia os principais trechos da entrevista com o professor.
O sr. defende que as empresas passaram, um tempo atrás, a buscar
qualidade como diferencial e isso virou uma commodity. E que o mesmo pode
acontecer também com a inovação. De onde surge essa análise?
A qualidade, até a década de 70, não era assim tão discutida porque os
consumidores tinham poucas opções. A partir da década de 70, e principalmente
na década de 80, a gente observa o surgimento do Japão como um país muito forte
na produção de itens de altíssima qualidade. E todo mundo na década de 80
achava que isso era muito em função da cultura japonesa, da disciplina. As
empresas ao redor do mundo tentavam copiar esse jeito japonês de ser. No começo
da década de 90, surge a certificação ISO 9000 e aquilo que era entendido como
característica da cultura japonesa passa a ser processo, passa a ser indicador
e passa a ser uma estratégia que qualquer um poderia adotar. Na década de 90 a
gente vê a proliferação do sistema de qualidade em todas as empresas do mundo.
O sistema ISO passa a ser objeto de desejo. No final da década de 90, escolas,
funerárias têm ISO 9000. E qualidade passou a ser commodity, virou processo.
E como a inovação se encaixa nessa equação?
A inovação segue pelo mesmo caminho. Ela não era uma vantagem competitiva na
década de 80, só em algumas empresas que eram muito inovadoras, como a Nike. O
que imperava era a questão da qualidade. Tanto é que tinha a frase: ‘Não é uma
Brastemp’. E ser uma Brastemp era ser sinônimo de qualidade. Na década de 2000,
quando qualidade passa a ser commodity, as empresas passaram a competir por
outros critérios. Como as empresas passaram a ter produtos de alta qualidade, o
que começou a diferenciar foi a inovação. E ela estava muito associada com
alguns gênios criativos como Steve Jobs. Ela passou a ser fetiche para as
empresas que queriam ser mais inovadoras e precisavam de pessoas mais
criativas. O que você percebe agora é que existem vários métodos que estão
sendo adotados e esses métodos permitem que elas sejam mais inovadoras.
E quais seriam os métodos?
Várias coisas que os gênios criativos usavam viraram métodos que agora estão
virando processos. Um deles é o Design Thinkink. Ele trabalha muito a questão de você ir para o
mercado, observar aspectos do cliente e como ele está tendo uma experiência
agora e como ele teria uma experiência melhor. Virou um método bastante
abordado pelas empresas, já virou processo de várias no Brasil: Itaú, Natura,
Whirlpool. Quando você olha os grandes gênios criativos, eles foram grandes
‘designers thinkers’. Outro método que está virando processo é o Lean Startup, que
trabalha muito com essa questão de planejar, do ponto de vista tradicional,
menos e ‘prototipar’ mais. Tem uma ideia, cria um protótipo, vai a campo,
valida e vai melhorando os produtos ou processos. O Bradesco é uma grande
empresa que adota essa lógica para pensar novos produtos.
Essa ‘commoditização’ da inovação pode ser boa ou é ruim?
Ela tende a ser boa em todos os aspectos porque você acaba tendo melhores
experiências de consumo, como aconteceu com a qualidade, mas em determinado
momento isso deixa de ser uma vantagem competitiva porque passa a estar ao
alcance de qualquer empresa. A inovação é uma vantagem competitiva neste
momento, mas em alguns setores, isso muitas vezes já deixa de ser, algo que a
gente está observando agora no mercado de smartphones. Todos os concorrentes se
parecem muito.
E em quais setores ainda há espaço para inovar?
O setor de educação ainda carece muito. Hoje o aluno ainda fica sentadinho numa
sala com o professor, dá para criar muitas experiências inovadoras.
Como entra essa questão da inovação disruptiva, aquela que cria um
mercado?
Essa inovação disruptiva existe, vamos dizer assim, desde o início da
humanidade. A gente vai continuar criando novos mercados.
Mas para quem está começando um negócio, vai ficar cada vez mais difícil inovar?
Na verdade, tem duas leituras possíveis aqui. Você pode enxergar que está cada
vez mais difícil porque sempre vai existir alguma coisa. Por outro lado, há
muita informação e você deveria buscar essa informação para pensar novas
soluções para problemas que as pessoas ainda têm. A gente continua tento muitos
problemas, muitas dores. E essas novas e antigas dores precisam de novas
soluções porque o mundo mudou. E tem mudado cada vez mais rapidamente.

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