A Rapoo passou a
fabricar drones devido à queda em seu negócio original. Photo:
Gillian Wong/The Wall Street Journal Por Gillian Wong, de Shenzhen, China.
Terça-Feira, 16 de Fevereiro de 2016 19:31 EDT
Enquanto os investidores globais se preocupam com a
saúde da enfraquecida economia chinesa, alguns combalidos fabricantes do sul da
China estão apostando que a salvação é subir de nível na escada da tecnologia.
Na fabricante de eletrônicos Shenzhen Rapoo Technology Co., braços robóticos
que durante anos foram usados na produção de mouses e teclados de computador
estão agora dando um passo além: fabricar drones para consumidores. A
expectativa é que tais produtos tragam margens maiores e atraiam novos
clientes, num momento em que o negócio original perde força.
Como muitas empresas em Shenzhen — a cidade da fronteira com Hong Kong que,
nos últimos 35 anos, ajudou a impulsionar a industrialização da China ao
produzir em massa brinquedos, roupas e utensílios domésticos baratos para todo
o mundo —, a Rapoo está correndo contra o relógio para encontrar novos mercados
e voltar a crescer.
“Se você só sabe fazer uma coisa bem, você pode mesmo ser imbatível e não
precisar mudar por dez anos?”, diz Xie Haibo, secretário do conselho da Rapoo.
“Esse é o tipo de problema que enfrentamos, então precisamos nos transformar.”
Por
toda Shenzhen, pequenos fabricantes estão cada vez mais produzindo impressoras
3-D, “hoverboards” (skates motorizados de duas rodas ) e robôs, uma visão
apoiada por visitas e incentivos financeiros dos líderes chineses. O governo
quer que essa modernização ajude o país a atravessar a dolorosa transição de
uma economia dependente de investimentos em infraestrutura para outra baseada
no consumo.
A cidade que o ex-líder chinês Deng Xiaoping escolheu, no fim dos anos 70,
para liderar as reformas de mercado da China está mostrando o caminho mais uma
vez. Sua economia cresceu 8,9% no ano passado, mais do que a expansão nacional
de 6,9%. As manufaturas de alta tecnologia cresceram o dobro da média nacional
como fatia do PIB.
Os problemas econômicos da China são quase imperceptíveis em Shenzhen, em
contraste com cidades decadentes construídas ao lado de mineradoras e
siderúrgicas estatais que agora sofrem com o colapso da demanda. A cidade, que
abriga a maior fabricante de drones do mundo por receita, a SZ DJI Technology
Co., tem um universo ativo de empresas novatas de internet e é a sede de
potências da tecnologia, como a Huawei Technologies Co., a maior fornecedora do
mundo de aparelhos para redes de telecomunicações, e a gigante da internet Tencent Holdings Ltd.
A desaceleração econômica do país trouxe um benefício inesperado para os
fabricantes de aparelhos e as “startups”: excesso de capacidade fabril. “Eles
tinham linhas paradas, máquinas inativas, equipes que custavam à empresa, mas
não eram usadas, que poderiam se deslocar para novos projetos”, diz Benjamin
Joffe, sócio da aceleradora de startups HAX, que tem sedes em Shenzhen e San
Francisco.
Em Huaqiangbei, o bairro comercial da cidade onde milhares de quiosques
oferecem todos os componentes eletrônicos imagináveis, os compradores ainda
enchem as lojas. Dentro de uma, Quenton Lee, gerente de operações da startup
Dreamcubics 3D Printing Co., diz que abriu a empresa em 2013 e vende
impressoras 3-D a preços entre 3 mil e 800 mil yuans (US$ 460 e US$ 122 mil)
cada uma, a maioria para empresas chinesas. No ano passado, a Dreamcubics
vendeu cerca de 300 impressoras, 50% a mais que em 2014, diz ele.
“As impressoras 3-D são uma boa forma de as empresas reduzirem custos de
pesquisa e desenvolvimento porque é mais barato testar ideias”, diz ele.
A Rapoo está fazendo uma aposta semelhante nos drones. A receita com
teclados e mouses que fabrica para marcas estrangeiras caiu cerca de 12% ao ano
desde 2010, quando a Rapoo faturou 650 milhões de yuans. As margens de lucro
dos produtos também recuaram, de 33% em 2011 para 26% no ano passado, segundo
documentos públicos da empresa. Já os drones geram uma margem de mais de 40%.
A estratégia da Rapoo continua sendo uma aposta, mas ela pelo menos migrou
para um dos principais setores da abatida economia da China. A produção de
veículos e equipamentos aeroespaciais, incluindo drones, está crescendo quatro
vezes mais rápido que a expansão de 7% na manufatura chinesa como um todo.
Desde 2014, a firma também obteve quase 5 milhões de yuans em financiamentos do
governo, segundo documentos.
O principal produto da Rapoo é a série Xiro de quadricópteros da marca
“Xplorer”, que são vendidos entre US$ 330 e US$ 699 e produzidos em parceria
com um desenvolvedor de drones de Pequim. Em janeiro, a joint venture fez uma
parceria com a Tencent, a gigante chinesa das redes sociais e jogos, para
desenvolver minidrones dobráveis que os consumidores possam carregar e integrar
mais facilmente com as plataformas de redes sociais.
A demanda da China por drones equipados com câmeras deve atingir 3 milhões
de unidades vendidas em 2019, segundo empresa de pesquisa de mercado IDC. Mas a
concorrência é grande e a Rapoo planeja captar 1,1 bilhão de yuans de
investidores privados para financiar uma expansão maior.
A empresa alertou os investidores para que esperem o primeiro prejuízo anual
em 2015 — provocado, segundo ela, por investimentos malsucedidos em jogos para
celulares —, mas também afirmou que espera obter lucro no primeiro trimestre
deste ano com o rápido crescimento dos novos negócios. As encomendas dos
sistemas robóticos da Rapoo, que testam e empacotam eletrônicos de consumo,
entre outras coisas, mais que triplicaram entre 2014 e o ano passado, para 65
milhões, segundo Xie.
A falha em se adaptar pode ser fatal. A 20 quilômetros da Rapoo, uma fábrica
da Shenzhen G Credit Electronics Co. está parada. A fabricante de celulares e
componentes por encomenda fechou as portas de repente no Natal.
Na Rapoo, Xie continua cauteloso, citando um provérbio chinês que diz:
“Quando o ninho do pássaro é revirado, nenhum ovo permanece intacto.”
“Ao contrário da China, o Brasil não avançou na produção de bens
tecnológicos com valor agregado porque o Brasil nunca teve uma política
industrial nem educacional voltada para tecnologia”, diz o economista Adriano
Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Preso à exportação de
commodities, principalmente agrícolas, a descoberta das reservas do Pré-Sal
apenas incentivou a acomodação do governo e a visão de que o petróleo iria
bastar e que o Brasil não precisaria investir em inovação e em empreendedorismo
para crescer, ressalta Pires. Para o economista, países como China e Coreia do
Sul que investiram em educação e tecnologia estão economicamente muito mais
avançados que o Brasil na produção de bens com valor agregado.


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